Do blog Traduzindo o Juridiquês.

Estive em uma cerimônia de formatura de graduados no curso de direito e estranhei o discurso do paraninfo, que sugeriu a todos a busca pela paz.

Noto que entre os alunos esse discurso é digerido como uma pré-disposição para sempre conciliar, sempre buscar a solução pacífica, como se lutar pelo que se acredita fosse um gesto antijurídico.

Ora, a vida do direito é uma luta, já ensinava Ihering há mais de 100 anos. Luta dos povos, do poder estatal, das classes e dos indivíduos, representando os esforços da humanidade para se domesticar. Entretanto, os meios utilizados nunca resolvem os conflitos da sociedade, mas apenas os aliviam, pois as regras padoxalmente existem para eternizar as disputas e alimentar continuamenteo o conflito.

Contraditório, não acham? Nada melhor do que lembrar a lição de Francesco Carnelutti, escrita em 1949:

“Não deveria o direito procurar a paz? Assim é a vida. Fé e dúvida parecem se contradizer; todavia bem disse Unamuno que “Fe que non duda es fe muerta”. Assim é a pureza e o pecado; assim a luz e a sombra. Logicamente o problema se resolve desvelando o equívoco entre oposição e negação e, por isso, esclarecendo que a negação é insuficiência: não o contrário, mas o defeito da luz é sombra como o defeito da pureza é o pecado. Por isso, não há oposição entre a guerra e a paz; também a guerra é uma insuficiência dos homens, os quais devem superá-la para alcançar a paz. Justamente porque no direito se combatem o fato e a lei, o direito não pode limitar-se à luta entre eles, mas deve superá-la.” Arte do Direito. Tradução de Amilcare Carletti. Editora Pilares. São Paulo. 2007.

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http://oglobo.globo.com/blogs/juridiques/posts/2010/03/19/devaneios-filosoficos-273200.asp

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